"Essa gente", o novo romance de Chico Buarque

Um escritor decadente passa por um deserto criativo e emocional enquanto o Rio de Janeiro colapsa ao seu redor. Em seu sexto romance, Chico Buarque constrĂ³i uma engenhosa trama em cujas entrelinhas se revelam as contradições do Brasil de agora.
Nas livrarias a partir de 14 de novembro.

HĂ¡ pontos de contato entre Chico Buarque e o protagonista de Essa gente. AlĂ©m de ser escritor, Manuel Duarte tem esse sobrenome de perfil vocĂ¡lico idĂªntico e gosta de bater perna atrĂ¡s de inspiraĂ§Ă£o nos arredores do Leblon, onde voltou a morar apĂ³s o fim de seu Ăºltimo casamento. Embora seja quase inevitĂ¡vel buscar alusões autobiogrĂ¡ficas no novo romance de Chico — o primeiro apĂ³s a consagraĂ§Ă£o do prĂªmio Camões —, o leitor nĂ£o demorarĂ¡ a descobrir que tal linha de pensamento conduz a um beco sem saĂ­da. Na melhor das hipĂ³teses, lhe dĂ¡ a posse de uma chave que pode abrir uma ou outra porta, mas nĂ£o todas. Essa nĂ£o serĂ¡ a Ăºnica pista falsa antes do ponto-final.
Essa gente Ă©, entre os romances de Chico, o mais Ă¡spero e possivelmente o mais enigmĂ¡tico. A histĂ³ria contada em forma de pequenos capĂ­tulos de diĂ¡rio, quase todos datados de um passado tĂ£o recente que se pode chamar de atualidade, Ă© mais um de seus quebra-cabeças narrativos com fumaças de literatura policial. No entanto, a reflexĂ£o sobre a linguagem que Ă© uma dimensĂ£o estruturante das ficções buarquianas se ancora desta vez no estilo mais imediato de todos: o do apontamento rĂ¡pido, feito para auxiliar a memĂ³ria do prĂ³prio apontador no futuro, quando houver distĂ¢ncia e lucidez para transformar o tumulto do presente numa histĂ³ria redonda. Sim, estamos no nebuloso paĂ­s do agora. A parte da brincadeira que cabe ao leitor Ă© mais decisiva do que nunca.
Autor de diversos livros, entre eles um best-seller jĂ¡ entrado em anos chamado O Eunuco do Paço Real, Duarte Ă© um escritor decadente Ă s voltas com uma pindaĂ­ba total, tanto financeira quanto afetiva. Tem um filho prĂ©-adolescente com quem Ă© incapaz de trocar uma Ăºnica palavra. EstĂ¡ sempre em busca de um modo de descolar dinheiro — seja arrancando mais um adiantamento de seu editor paulista, seja apelando Ă  generosidade arisca de um amigo bem-sucedido. Com uma mistura de hiperatividade e inaĂ§Ă£o, ricocheteia entre suas duas ex-mulheres, uma tradutora intelectual e uma decoradora perua, e um nĂºmero nĂ£o especificado de putas. Enquanto isso, Ă  sua volta, o Rio de Janeiro sangra e estrebucha sob o flagelo de feridas sociais finalmente supuradas, exibidas por muitos com uma espĂ©cie doentia de orgulho.
O distanciamento emocional vagamente camusiano com que Duarte fala dessas ruĂ­nas, tanto a pessoal quanto a coletiva, eximindo-se de juĂ­zos histĂ³ricos ou mesmo de indignaĂ§Ă£o, dĂ¡ ao livro um tom de farsa — nĂ£o ligeira mas grave, encharcada de humor negro. Logo de saĂ­da, a comĂ©dia sombria se escancara na subtrama dos castrati: um pastor neopentecostal e um maestro italiano estĂ£o castrando jovens pobres dos morros cariocas, com a anuĂªncia de suas famĂ­lias, a fim de abastecer o mercado do canto lĂ­rico internacional.
SerĂ¡ que estamos diante de uma alegoria poderosa da emasculaĂ§Ă£o de um povo? Pode ser, mas talvez isso sĂ³ exista na ficĂ§Ă£o que Duarte tenta escrever, alegoria de alegoria, retomando um tema presente em O Eunuco do Paço Real. Essa e outras fronteiras entre vida, imaginaĂ§Ă£o, sonho e delĂ­rio vĂ£o sendo borradas pelo autor — e aqui falamos de Chico Buarque — com um sorriso que quase se deixa entrever nas pĂ¡ginas.
A montagem do quebra-cabeça se complica mais um pouco quando outros narradores se apresentam, das ex-mulheres de Duarte a uma vizinha enxerida que lhe Ă© uma completa estranha, sem falar de uma voz que narra em terceira pessoa. Vai ficando claro que o “diĂ¡rio” Ă© um estratagema literĂ¡rio de Duarte, o prĂ³prio livro que ele tenta escrever, embora tambĂ©m essa chave encontre seu limite quando, nas Ăºltimas pĂ¡ginas, o formato se prolonga alĂ©m de toda verossimilhança para dar o toque final numa charada que o autor capricha em deixar sem soluĂ§Ă£o. Uma informaĂ§Ă£o jogada entĂ£o com sugestiva ausĂªncia de Ăªnfase, a de que o computador do protagonista estava vazio de textos, chega a acenar com a nĂ£o existĂªncia do prĂ³prio livro que se acabou de ler.
Romance urgente, colado corajosamente na opacidade do agora, Essa gente Ă©, numa primeira leitura, uma comĂ©dia de costumes tĂ£o divertida quanto cruel. É tambĂ©m um engenho narrativo feito para empurrar atĂ© o futuro possĂ­vel — algum momento apĂ³s o fim da leitura — o caimento da ficha derradeira: a compreensĂ£o de que, enquanto Duarte nos conduzia pelas tortuosas vielas literĂ¡rias de sua histĂ³ria mundana, alegĂ³rica, metalinguĂ­stica, o mais importante ocorria ao seu redor. O foco se desloca entĂ£o da “literatura” para a paisagem, a chapa quente carioca compartilhada pela classe mĂ©dia alta do Leblon e pela mistura de classe mĂ©dia baixa, pobreza e misĂ©ria da vizinha favela do Vidigal. Terminada a leitura, o livro nos intima a virĂ¡-lo do avesso, transformando fundo em forma e desviando os olhos da histĂ³ria para a HistĂ³ria.
Nessa nova perspectiva, os personagens principais se tornam com clareza dolorosa a violĂªncia letal da polĂ­cia contra “essa gente”, a humilhaĂ§Ă£o dos porteiros, o espancamento gratuito do mendigo pelo sĂ³cio do Country Club, o bullying sofrido na escola pelo filho de esquerdistas, o alagamento apocalĂ­ptico das ruas em dias de chuva, as pedras que ameaçam deletar o morro, a falĂªncia material e moral de uma cidade que jĂ¡ foi sĂ­mbolo de uma naĂ§Ă£o — talvez ainda seja. Que a Ăºnica redenĂ§Ă£o possĂ­vel venha do olhar de uma ruiva gringa apaixonada pela fantasia do Orfeu do Carnaval Ă© parte do humor dilacerante da primeira obra literĂ¡ria de vulto a encarar o tema do Brasil bolsonarista. Pensando bem, essa gente somos todos nĂ³s.

SĂ©rgio Rodrigues
Ouça um trecho do livro, com narraĂ§Ă£o de MarĂ­lia Garcia
SOBRE O AUTOR
Francisco Buarque de Hollanda nasceu no Rio de Janeiro, em 1944. Compositor, cantor e ficcionista, publicou, alĂ©m das peças Roda viva (1968), Calabar, escrita em parceria com Ruy Guerra (1973), Gota d’Ă¡gua, com Paulo Pontes (1975), e Ă“pera do malandro (1979), a novela Fazenda modelo (1974) e os romances Estorvo (1991), Benjamim (1995), Budapeste (2003), Leite derramado (2009) e O irmĂ£o alemĂ£o (2014).

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